Vista número 70: Fuji arreganhado

O tanoeiro utiliza o malho para encaixar a última tábua de um barril enquanto o monte Fuji se insinua em sua virilha, cena que evoca aquela em As 36 vistas do monte Fuji, onde a montanha sagrada se faz visível não acima, mas através do recipiente de madeira.
Anos antes, Hokusai compusera um senryu 川柳 — poema bem-humorado curto, com dezessete sílabas divididas em três versos de 5-7-5 sílabas — que se encaixaria no contexto:
八の字の
ふんばり強し
夏の富士
hachi no ji no
funbari tsuyoshi
natsu no Fuji
uma postura nítida
na forma de oito
o Fuji no verão

O ideograma oito 八 alude tanto às pernas abertas do tanoeiro como às encostas da montanha, que, no verão, se exibe despudorada, sem a cobertura da neve ou a proteção das nuvens. A imagem ainda evidencia o desejo do artista de, por vezes, espelhar o corpo humano com a forma do Fuji, no anseio irrealizável de incorporar o homem ao sagrado e torná-lo capaz de, mesmo que por um instante, compreender sua imaculada divindade.

Título: Matagi Fuji 跨キ不二
Série: Fugaku hyakkei 富嶽百景 (c. 1849)
Artista: Katsushika Hokusai 葛飾北斎 (1760-1849)
Título: Bishu Fujimigahara 尾州不二見原
Série: Fugaku sanjurokkei 富嶽三十六景 (c. 1830-1832)
Artista: Katsushika Hokusai 葛飾北斎 (1760-1849)
Título: Sochu no Fuji 窻中の不二
Série: Fugaku hyakkei 富嶽百景 (c. 1849)
Artista: Katsushika Hokusai 葛飾北斎 (1760-1849)




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