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Vista número 33: festival Sanno

16 de ago.
2 min de leitura

Xintoísmo 神道 é a religião autóctone do Japão e compreende todos os fenômenos naturais, considerados imbuídos de energia vital própria. Não sustenta dogmas ou livros sagrados, o que permite ser considerado, em vez de um sistema estruturado de doutrinas, uma combinação de veneração à natureza e memória aos antepassados, em que parcela significativa dos rituais consiste de abluções e purificações. Introduzido no Japão na metade do século 6, o budismo impactou o xintoísmo — e foi por ele impactado. Afinal, era partidário de não rechaçar, mas incorporar, crenças locais de modo a coexistirem em harmonia.

Há muito, havia um santuário xintoísta no monte Hiei 比叡山, lugar auspicioso no entorno de Quioto 京都. Quando um monastério foi ali estabelecido no final do século 8, os monges residentes absorveram algumas das suas práticas: quando apresentavam uma petição ao imperador, por exemplo, desciam as encostas trazendo à tiracolo um andor com a imagem da divindade local Sanno 山王, rei da montanha. Com o tempo, a procissão se transformou em um importante festival comemorado do nono ao décimo sexto dia do sexto mês, época de lua cheia. Na colorida celebração, devotos vestiam trajes ancestrais e crianças trajavam quimonos, tremulavam-se largas bandeiras e carros alegóricos eram tracionados por seres humanos ou bois, sobre os quais indivíduos executavam danças rituais.

Na imagem, o sujeito usa uma longa peruca vermelha, que se estende até os calcanhares, e agita um gohei 御幣, vara de condão adornada com papéis dobrados em zigue-zague shide 紙垂. O veículo está coberto por tecidos bordados a retratar uma corrida de cavalos cerimonial palaciana. Na base, a representação de instrumentos musicais sagrados. A procissão se encontra diante do Castelo de Edo 江戸城, momento em que será admirada pelo xógum 将軍. É cedo pela manhã e a lua se prolonga no céu azul.

À direita, vê-se um galo kankodori 閑古鳥, pássaro do tambor, cuja silhueta parece ecoar nas nuvens. Pareidolia. Na China antiga, um tambor fora disposto no portão principal do palácio do imperador, tocado por vassalos pleiteantes. Durante o pacífico reinado do lendário regente Yao 堯 (c. 2356-2255 a.C.), o instrumento musical caiu em desuso e se transformou em poleiro para galinhas, tornando-se símbolo de bom governar. No ano 645, o costume foi introduzido no Japão e um tambor acompanhado de caixa para petições foi colocado nas cercanias do palácio imperial.

 

Título: Shinji no hangetsu Sanno matsuri 神事残月山王祭

Série: Tsuki hyakushi 月百姿 (1885-1892)

Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)

 

Título: Gankodori 閑古鳥

Artista: Yashima Gakutei 八島岳亭 (c. 1786-1868)

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