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Vista número 30: Bodhidharma

3 de ago.
2 min de leitura

As raízes do zen budismo retrocedem à ocasião em que Buda, em vez de proferir seus tradicionais sermões, limitou-se a segurar uma flor na mão em silêncio. Apenas um discípulo, Mahakasyapa, compreendeu a mensagem: o despertar pode acontecer sem a intermediação de rituais litúrgicos ou o estudo exaustivo dos sutras sagrados.

Um milênio depois, no início do século 6, um príncipe indiano dispensa o professor de budismo e parte para a China. Seu nome, Bodhidharma. Daruma 達磨, em japonês. Permaneceu um período no Cantão, onde se recusou a enaltecer o governante local por seu apoio material, em vez de espiritual, ao budismo. Então, dirigiu-se ao templo shaolin situado nos limites de Luoyang, região norte.

Na imagem, Daruma encontra-se em posição meditativa, que perdurou por nove anos — à medida em que o tempo transcorria, as paredes se deterioraram até colapsar. O ha 破 do título é traduzido desintegrar e so 窓, janela. Na obra do século 14 Taiheiki 太平記, bonzos dialogam sobre contemplar a lua da realidade derradeira através da janela da abstração.

Rezam os cânones que, após Daruma alcançar a iluminação, um monge de nome Eka 慧可 (487-593) foi à sua presença implorar que o tomasse por discípulo. A meditar no interior de uma caverna, o santo homem se recusou a responder, ao que o pleiteante decepou um dos braços e o ofereceu ao bodisatva como demonstração da sua determinação em romper o samsara, a roda contínua da reencarnação. Doravante, os ensinamentos de Daruma introduziram o budismo chan (zen 禅) à China.

Aqui, o iluminado ostenta barba e cabelos ondulados, característico dos indianos. Trepadeiras se insinuam por sobre as ruínas de argila. A cena é banhada pelo luar, todavia a atmosfera não proporciona serenidade — severo, Daruma parece digladiar com os próprios pensamentos, o rosto sisudo em vez de plácido. O bodisatva é tema recorrente entre os artistas zen budistas, com as pinturas de Hakuin Ekaku 白隠慧鶴 (1686-1769) dentre as mais conhecidas, caracterizadas por pinceladas econômicas, porém marcantes.

Daruma se tornou epítome de disciplina e austeridade, e são muitas as narrativas que enriquecem sua biografia. Certa vez, teria cochilado enquanto meditava e, ao despertar, mortificado com tamanha fraqueza de caráter, cortou as pálpebras e as lançou ao solo — delas brotaram as primeiras folhas de chá, que desde então tanto têm ajudado às pessoas permanecer despertas. Como resultado dos nove anos de meditação ininterrupta, o santo homem acabou com as pernas atrofiadas, o que inspirou a concepção do seu boneco em formato de joão-bobo — em referência, bonecos de neve japoneses são chamados de yukidaruma 雪達磨, Daruma de neve. Daruma também designava garotas de programa, em sátira à parcela considerável de monges corruptos existente, enquanto simultaneamente comparava o sofrimento das prostitutas com as provações do iluminado. Outra explicação, menos edificante, sugere que as meretrizes, tão logo satisfeitos os clientes, logo deveriam se colocar de pé para atender os próximos, em movimento similar ao boneco joão-bobo.

 

Título: Haso no tsuki 破窓月

Série: Tsuki hyakushi 月百姿 (1885-1892)

Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)

 

Títulos: Daruma 達磨

Artista: Hakuin Ekaku 白隠慧鶴 (1686-1769)

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