Vista número 28: a deusa duas-caras

Cena que acontece durante as batalhas viscerais entre os clãs Taira 平 (ou Heike 平家) e Minamoto 源 (ou Genji 源氏), perpetradas no século 12. A figura aqui representada é Taira Tsunemasa 平経正 (?-1184), bem-sucedido líder militar e exímio músico, combinação não incomum aos samurais do período Heian 平安時代 (794-1185).
Educado no templo Ninnaji 仁和寺, em Quioto, Tsunemasa nutria especial predileção pelo alaúde de quatro cordas biwa. Certa vez, o regente o presenteou com um precioso instrumento importado da China durante o reinado do imperador Ninmyo 仁明天皇 (808-850): nada menos que o seizan no biwa 青山の琵琶, alaúde da montanha verde, assim denominado em decorrência da pintura que o ornava, a lua na alvorada a despontar acima de uma montanha atapetada de árvores. Tsunemasa o tangia de forma tão primorosa que seu soar, diziam, era como chuva celestial mesclada com o cantar das aves.
No clássico do século 13 Heike monogatari 平家物語, Narrativas dos Heike, consta a passagem em que, enquanto em campanha na região nordeste de Quioto, Tsunemasa se deteve para meditar às margens do lago Biwa 琵琶湖. À distância, vislumbrou uma bela ilha e descobriu se tratar de Chikubushima 竹生島, famosa pelo santuário consagrado à deusa Benzaiten 弁才天.
Acompanhado de um grupo de generais, Tsunemasa se desloca ao local e visita o recinto sagrado, ocasião em que aproveita para orar pela vitória do seu clã contra os Minamoto. Enquanto rogava, a lua desponta por sobre as águas e banha de prateado a cena. Ciente da reputação de Tsunemasa, o sacerdote local traz um alaúde e solicita que dedilhe uma peça. Tocada pela pungência dos acordes, Benzaiten se manifesta na forma de um dragão branco e serpenteia sobre os ombros do bushi, assegurando que suas preces seriam atendidas.
Os Taira, todavia, acabaram derrotados e seus líderes, executados — Tsunemasa inclusive. Quanto ao alaúde da montanha verde, acabou disposto no santuário erigido em sua memória.
Na imagem, o jovem lorde, em concentração profunda, manipula o biwa diante do santuário insular. Gibosa, a lua brilha através dos pinheiros. Tsunemasa se despiu da manopla e a dispôs à esquerda — a mão direita de um samurai costumava permanecer desnuda, de modo a retesar com facilidade a corda do arco —, sentando-se sobre um tapete de pele de urso. A bainha da catana, por sua vez, está revestida com pele de tigre.
O tecido branco e roxo que envolve o biwa, e que se encontra estranhamente pendurado na ponta do galho de pinheiro, talvez incorpore a aparição da santa. Divindade hindu alçada ao seleto panteão dos Shichifukujin 七福神, Sete Deuses da Fortuna japoneses, Benzaiten é patrona da música e das artes, comumente representada montada em um dragão a dedilhar um alaúde. Pouco após se manifestar a Tsunemasa, a divindade também aparece na forma de um dragão a Hojo Tokimasa 北条時政 (1138-1215), primeiro regente do xogunato Kamakura 鎌倉幕府 (1185-1333), a quem confere três escamas do próprio corpo, com os quais o general concebe o brasão da sua família.
Lados opostos oravam aos mesmos deuses, incapazes de agradar a todos.
Título: Chikubushima no tsuki Tsunemasa 竹生島月経正
Série: Tsuki hyakushi 月百姿 (1885-1892)
Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)




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