Vista número 22: lua de fogo

As edificações japonesas eram em boa parte feitas de madeira e papel, o que as tornavam bastante vulneráveis a incêndios, calamidade comum em cidades apinhadas e sem planejamento. Na capital, por exemplo, as línguas de fogo receberam o poético epíteto de Edo no hana 江戸の花, flores de Edo. Era imprescindível, portanto, a organização de unidades de combate às conflagrações, cujos integrantes eram admirados como heróis e notórios pelo comportamento intrépido e impetuoso.

A imagem é surpreendentemente calma. Imóvel, o bombeiro contempla as labaredas, postura espelhada pelo companheiro à distância, posicionado no telhado que dois brigadistas tratam de desmontar a fim de evitar a dispersão das chamas. Era comum brigadas competirem entre si, e o porta-estandarte evidenciava qual estaria responsável por debelar o incêndio em questão — e, caso a propriedade fosse salva, quem receberia a recompensa em agradecimento. Conhecidos por matoi 纏, os estandartes eram feitos de papel, couro e madeira, sendo utilizados como sinalizadores quando o bramir do fogaréu impossibilitava a comunicação oral.
O brigadista veste roupas bastante acolchoadas que, encharcadas de água, protegiam contra o calor intenso. O símbolo circular na parte posterior do capuz é uma forma estilizada do caractere em hiragana para i い, contração de ichi いち, um, enquanto o ideograma abaixo significa gumi 組, tropa — ou seja, tropa número um. O kanji às costas, por sua vez, é lido matoi, que confirma se tratar o sujeito do porta-estandarte da companhia.



Título: Enchu no tsuki 烟中月
Série: Tsuki hyakushi 月百姿 (1885-1892)
Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)
Título: Shinmei sumo toso no zu 神明相撲闘争之図 (1886)
Série: Shinzen Azuma nishikie 新撰東錦絵
Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)
Série: Kaku daiku matoi kagami daiichi daiku 各大区纒鑑第一大区 (1876)
Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)




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