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Vista número 16: ameixeira ao luar

28 de ago. de 2025
2 min de leitura

月輝如晴雪

梅花似照星

可憐金鏡轉

庭上玉房馨

 

tsuki kagayakite seisetsu no gotoshi

baika wa shusei ni niru

awaremubeshi kinkyo tenzu

teijo gyokubo no kaori

 

lua que resplandece como neve

e torna estrelas as ameixeiras em flor

lua que se desloca sobre nossas cabeças

o perfume do aposento invade o jardim

 

Estadista da corte de Heian 平安, Sugawara Michizane 菅原道真 (845-903) foi um notável erudito de literatura continental, e há quem o considere o mais habilidoso dos primeiros poetas japoneses a se aventurar em versos em chinês. Obteve excelência em tudo a que se dedicou, de arco e flecha a poesia de improviso, ascendendo em velocidade a hierarquia cortesã, sempre a servir com diligência e sabedoria o imperador Daigo 醍醐天皇 (885-930).

No primeiro dia de 901, contudo, calhou de acontecer um eclipse solar, instrumentalizado pelos desafetos de Michizane como um terrível mau agouro, prova inconteste que o sujeito almejava eclipsar o regente. Terminou exilado em Kyushu 九州, onde faleceu dois anos depois, ressentido e solitário.

A sanha de vingança do espírito de Michizane foi então canalizada àqueles que o caluniaram, mortos um a um. Não somente, o país se viu assolado por catástrofes de grandes proporções. Nesse ínterim, Daigo faleceu. Era tamanho desespero que um monge eminente desceu ao Inferno para debater a questão com o espírito penitente do ex-imperador, que revogou a sentença de Michizane e restabeleceu seu antigo posto hierárquico. Tempos depois, Michizane acabou deificado e se tornou Tenjin 天神, divindade xintoísta da música, caligrafia e literatura, particularmente assistencial às crianças em fase de alfabetização. Em sua forma punitiva, manifesta-se como o deus do trovão, a castigar difamadores e malfeitores.

Michizane revelou os talentos literários aos 11 anos. Instruído pelo pai a compor um poema acerca da beleza das ameixeiras em flor sob o luar, de pronto redigiu os versos supracitados. Na imagem, o garoto segura com delicadeza o pincel, suspenso acima da folha de papel apoiada no leque. O penteado ainda se encontra num estilo anterior à cerimônia de maioridade genpuku 元服, realizada entre 12 e 16 anos.

A ameixeira é a primeira árvore a desabrochar na primavera, às vezes super cedo, razão pela qual também é representada a florescer no inverno. Quando referida na arte, subentende final do inverno e início da primavera, com conotações da vida que desafia o inóspito e triunfa sobre as adversidades.

Brasão do clã Sugawara
Brasão do clã Sugawara

Michizane acalentava especial apreço por ameixeiras em flor, que constam em seu brasão e em muitos poemas de sua autoria, o mais famoso composto em vias de partir para o exílio:

 

東風吹かば

にほひをこせよ

梅の花

主なしとて

春を忘るな

 

kochi fukaba

nioi wo koseyo

ume no hana

aruji nashi tote

haru wo wasuruna

 

quando o vento leste soprar

permita que leve sua fragrância

flores de ameixeira

apesar da ausência de seu senhor

não se olvidem da primavera

 

Título: Tsuki kagayakite seisetsu no gotoshi Sugawara Michizane 月輝如晴雪菅原道真

Série: Tsuki hyakushi 月百姿 (1885-1892)

Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)

 

Título: Zosho ichii Sugawara no Michizane ko 贈正一位菅原道真公

Série: Kokoku nijushiko 皇国二十四功 (1881)

Artista: Tsukioka Yoshitoshi 月岡芳年 (1839-1892)

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