Ponte corcunda, santuário Kameido Tenjin

Haja quadríceps.
Localizada em Kameido 亀戸天, na capital Edo 江戸, a ponte corcunda conduzia ao santuário Tenmangu 天満宮, construído em 1662 em homenagem ao cortesão Sugawara Michizane 菅原道真 (845-903), estadista erudito deificado sob o nome Tenjin 天神, guardião da literatura e caligrafia. As celebrações à divindade ocorriam na primavera, quando as glicínias nos caramanchões estavam em plena floração, e um grande festival acontecia no vigésimo quarto dia do oitavo mês, de especial interesse para os homens de letras.
O entorno do santuário ainda seria morada de uma certa ameixeira que, reza a lenda, germinara daquela plantada na residência de Michizane em Quioto. Após a condenação ao exílio, o nobre teria sentido saudade tamanha da árvore que esta cuidou de enviar uma semente por meio dos ventos para aplacar sua melancolia.
Construídas sobre o lago Shinji 心字池, assim batizado pela semelhança com o ideograma coração 心, as três pontes simbolizam o passado, presente e futuro. Duas delas, a primeira e a última, são arqueadas em formato de tambor taiko 太鼓, enquanto a estrutura intermediária, representante do presente, é plana.
A vista de Hokusai realça a arquitetura de uma das pontes, escorada por duas fileiras de quatro colunas conectadas por vigas transversais, um prodígio da carpintaria. A cena, apesar dos pesares, acontece no verão e não na primavera, como se o artista julgasse que as glicínias em flor pudessem desviar a atenção do observador.

Estadista da corte de Heian 平安, Sugawara Michizane foi um notável erudito de literatura continental, e há quem o considere o mais habilidoso dos primeiros poetas japoneses a se aventurar em versos em chinês. Obteve excelência em tudo a que se dedicou, de arco e flecha a poesia de improviso, ascendendo em velocidade a hierarquia cortesã, sempre a servir com diligência e sabedoria o imperador Daigo 醍醐天皇 (885-930).
No primeiro dia de 901, contudo, calhou de acontecer um eclipse solar, instrumentalizado pelos desafetos de Michizane como um terrível mau agouro, prova inconteste que o sujeito almejava eclipsar o regente. Terminou exilado em Kyushu 九州, onde faleceu dois anos depois, ressentido e solitário.
A sanha de vingança do espírito de Michizane foi então canalizada àqueles que o caluniaram, mortos um a um. Não somente, o país se viu assolado por catástrofes de grandes proporções. Nesse ínterim, Daigo faleceu. Era tamanho desespero que um monge eminente desceu ao Inferno para debater a questão com o espírito penitente do ex-imperador, que revogou a sentença de Michizane e restabeleceu seu antigo posto hierárquico. Tempos depois, Michizane acabou deificado e se tornou Tenjin, divindade xintoísta da música, caligrafia e literatura, particularmente assistencial às crianças em fase de alfabetização. Em sua forma punitiva, manifesta-se como o deus do trovão, a castigar difamadores e malfeitores.

Título: Kameido Tenjin taikobashi かめゐど天神たいこばし
Série: Shokoku meikyo kiran 諸国名橋奇覧 (1834)
Artista: Katsushika Hokusai 葛飾北斎 (1760-1849)
Título: Sugawara no Michizane 菅原道真 (1884)
Artista: Kobayashi Kiyochika 小林清親 (1847-1915)




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