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Yamaoka Tesshu (1836-1888)

Atualizado: 6 de mai. de 2023


Uma das principais características das artes marciais é sua severidade. Afinal, é compreensível que soldados treinem duro para se aprimorar em combates que resultam em vida ou morte. Unidades militares de elite adotam métodos rigorosos como parte do processo seletivo, recurso que almeja pressionar os candidatos para além dos limites impostos pela mente e pela sociedade. Alguns efeitos colaterais são abuso de poder e maus-tratos, cujo objetivo é demarcar hierarquias e incitar a obediência cega em detrimento de potenciais individualidades.


Yamaoka Tesshu 山岡鉄舟 nasceu na capital Edo, em 1836. Seu pai era um samurai vassalo do décimo quinto e último xógum, Tokugawa Yoshinobu (1837-1913). Sua mãe, filha de um importante sacerdote xintoísta. Batizado Ono Tetsutaro, iniciou os estudos marciais aos 9 anos, adotando o sobrenome Yamaoka após se casar com a irmã do seu instrutor de lança.

Aos 28 anos, Tesshu foi derrotado pelo espadachim Asari Gimei, tornando-se seu discípulo. Apesar de jovem e forte, Tesshu era incapaz de rivalizar com o espírito demonstrado por Asari — que, durante os treinos, costumava forçar Tesshu até os fundos do dojo para, em seguida, derrubá-lo em plena calçada, fechando então a porta atrás de si. Isso fez Tesshu intensificar o treinamento e aumentar as horas consagradas à meditação. Fosse na cama ou durante as refeições, em sua mente só havia espaço para a arte da espada. Era comum despertar em plena madrugada e solicitar à esposa que empunhasse uma catana, de modo a experimentar alguma variação na técnica aprendida.

Então, em uma manhã de 1880, aos 45 anos, Tesshu assumiu a posição meditativa zazen e alcançou a iluminação. Horas depois, foi ao dojo praticar kendo com Asari, que, assim que colocou os olhos no discípulo, soube que este alcançara o despertar.

“Até que enfim”, disse. E recusou o convite para lutar.

Tempos depois, Tesshu inaugurou sua escola de artes marciais, pautada em um estilo intitulado sem-espada, cujo objetivo era a compreensão da não existência de inimigos, apenas a pureza do método.


A técnica mais famosa desenvolvida por Tesshu era a seigan. O nível básico consistia em mil dias de prática ininterrupta seguidos de duzentos duelos consecutivos em um único dia. No nível intermediário, seiscentos combates em três dias. E, no avançado, mil e quatrocentos duelos em uma semana.

Muitos discípulos de Tesshu registraram suas experiências com a técnica. Yanagita Ganjiro, por exemplo, completou o seigan básico para, em seguida, dedicar-se a quinhentos dias de prática antes de se arriscar no seigan intermediário. Os golpes infligidos pelas espadas de bambu shinai eram extremamente dolorosos. Yanagita rememora:


Após o primeiro dia, minha cabeça já estava cheia de inchaços e meu corpo, coberto por hematomas. Apesar disso, não sentia fraqueza. Foi no segundo dia que de fato comecei a sofrer. Pensei que abandonaria o seigan pela metade. Persisti e, próximo ao final da tarde, vivenciei a despedida do ego e naturalmente me fundi ao oponente, conhecendo a liberdade desimpedida. Embora o espírito fosse forte, o corpo era fraco: minha urina estava vermelho-escuro e não sentia qualquer apetite. Mesmo assim, cumpri os desafios do último dia com a mente limpa. Era como se flutuasse entre nuvens.

Yamaoka Tesshu se desloca de Edo a cavalo para se encontrar com Saigo Takamori e negociar um acordo de paz


A vida de Tesshu perpassou o Japão feudal e o moderno. Após a derrocada do xogunato, tornou-se tutor do imperador Meiji. Reza a lenda que, certa vez, o jovem regente, percebendo como as roupas do sensei estavam puídas, deu-lhe dinheiro para renovar o guarda-roupa. Tesshu, que tinha em pouca conta bens materiais, entregou a soma aos indigentes que apareciam em sua residência em busca de auxílio.

Tesshu morreu de câncer no estômago em 1888, aos 53 anos. No dia da sua morte, percebeu um estranho silêncio no dojo. Ao ser informado que as aulas haviam sido canceladas para os alunos permanecerem ao seu lado, ordenou que retornassem à sala de prática.

“Treinar é a única maneira de honrar meu nome”, sentenciou.

Antes do suspiro final, Tesshu compôs o tradicional poema fúnebre, sentou em posição formal e fechou os olhos, mergulhando para o descanso eterno.


Apesar da vida consagrada às artes marciais, Tesshu jamais tirou a vida de um ser humano.


腹痛や

苦しき中に

あけからす


contraindo o ventre

de dor

grita o corvo matutino

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