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Varal de melancia



Feita em 1839, ano em que Hokusai comemorava sete décadas de vida, a pintura — do gênero hashira-e 柱絵, para pendurar na parede — apresenta uma metade de melancia parcialmente coberta por um pano, agora translúcido pelo contato com o molhado da fruta, em cuja superfície descansa um cutelo afiado. Na parte superior, um varal sustenta longas tiras de casca para secar. O artista capturou o breve intervalo em que presença humana se faz ausente, em uma imagem que mescla sazonalidade com elementos sobrenaturais e uma pitada de erotismo.

Além de hábil em ilustrar demônios e assombrações, Hokusai era engenhoso em ocultar o sobrenatural no cotidiano. Era no final do verão, época de melancias, que acontecia o Bon 盆, festival dos mortos em homenagem às almas dos ancestrais, ocasião em que os espíritos ficavam inquietos, ansiosos e cheios de saudade, e a população se reunia para compartilhar histórias de fantasmas.

Agora, a inocente melancia não parece mais tão pura. As cascas, drapejantes e entrelaçadas, passam a evocar famosas narrativas de terror — a de Kohada Koheiji 小幡小平次, por exemplo, pífio ator de cabúqui assassinado pela esposa e o amante. O cutelo, então, nem se fala. A polpa da melancia sob a lâmina cria a ilusão de poça de sangue.







Faça a prova dos nove e compare a pintura com uma parecida, também de Hokusai, executada anos antes.





Artista: Katsushika Hokusai 葛飾北斎(1760-1849)

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