Os 24 modelos de devoção filial
Atualizado: 14 de out. de 2025

11 AMOR E AMORAS
a árvore prefere a inércia, mas o vento insiste em soprar
a pessoa quer ser boa aos pais, porém estes estão mortos
Na dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.) chinesa viveu Cai Shun, filho devotado que perdeu o pai bastante jovem. Agora, eram ele e a mãe. À época, Wang Mang (45 a.C.-23 d.C.) acabara de usurpar o trono, o que mergulhou o país em convulsões e turbulências, refletidas em escassez de víveres, preços inflacionados e guerras civis, tudo ao mesmo tempo agora. A população padecia e, para sobreviver, amiúde era necessário invadir plantações alheias em busca de raízes e plantas silvestres. Veganismo compulsório. Era comum gente decente e honrada decair na bandidagem. Estradas eram terra de ninguém, infestadas de gangues e milícias, enquanto florestas foram alçadas a refúgio para delinquentes e sem-teto.
Eis que, certo dia, Cai Shun apanhava amoras quando, do aquém, do além, de onde não vem ninguém, apareceram dois perversos marginais, as lâminas afiadas a refletir suas feições cruéis.
“Quer morrer, moleque? Quem permitiu invadir nosso território?”, bradou o maior. Em pânico, Cai Shun só tartamudeava.
“Por que separa os frutos em dois cestos?”, perguntou curioso o menor.
Com voz trêmula, Cai Shun respondeu.
“As amoras pretas estão mais maduras e, portanto, mais doces. São as que separo para minha mãe. As vermelhas, ainda verdes, têm sabor azedo. São as que separo para mim. Peço que não me matem, caso contrário, minha mãe ficará desamparada”.
Uma resposta simples, porém honesta, que tocou o calejado coração dos foras da lei, que optaram por não somente libertar Cai Shun, mas ainda o abastecer com comida e bebida.
amoras pretas, destinadas à mãe
a blusa manchada de lágrimas de fome
condoídos por devoção tamanha,
concederam-lhe arroz, carne e liberdade
Imagem: Saijun 蔡順
Série: Morokoshi nijushiko 唐土廾四孝 (1848)
Artista: Utagawa Kuniyoshi 歌川国芳 (1798-1861)




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