O fio da aranha 蜘蛛の糸

Atualizado: 13 de nov. de 2021


I


Certa vez, o Buda caminhava solitário e ocioso nas margens do Lago do Lótus, situado no Paraíso. As flores de lótus que despontavam do lago eram brancas brancas como pérolas, e de seus estames dourados emanava uma gostosa fragrância — difícil expressá-la em palavras! — que transbordava para as cercanias sem jamais arrefecer.

Devia ser manhã no Paraíso.

Passados alguns instantes, o Buda parou. Ficou em pé na margem do lago, a contemplá-lo. Dos espaços existentes entre as folhas de lótus que acarpetavam a superfície da água, pôde observar casualmente seu interior. O fundo do Lago do Lótus, situado no Paraíso, fazia divisa justamente com as profundezas do Inferno. Ali a água era límpida e transparente qual cristal, possibilitando ao observador vislumbrar suas paisagens — o Rio dos Três Caminhos, a Montanha dos Alfinetes! — como se estivesse de posse dum monóculo.

Nas profundezas do Inferno, o olhar do Buda deteve-se sobre a figura de um homem, um homem que se contorcia como um verme em meio à massa de outros homens que se contorciam como vermes, um homem chamado Kandata. Esse homem, chamado Kandata, fora um terrível facínora que cometera os mais abjetos crimes — homicídios, incêndios —, mas havia em sua memória uma única vez em que praticara uma boa ação. Só uma. Mais nenhuma. Ela aconteceu num dia em que esse homem, atravessando uma mata fechada, avistou uma pequenina aranha a caminhar pela trilha. Kandata imediatamente ergueu o pé com a intenção de esmagá-la, mas deteve-se e pensou: “Ah, não! Não! Essa aranha é pequena, mas ainda assim tem vida dentro dela. Se tem vida, não faz diferença o bicho ser pequeno ou grande. Matar não me fará uma pessoa com compaixão”. Ao lembrar-se disso, Kandata optou por poupar a aranha ao invés de esmagá-la.

O Buda, enquanto contemplava o Inferno, recordou-se do fato desse homem, chamado Kandata, haver salvo aquela pequenina aranha. Para toda boa ação existe uma recompensa. O Buda refletiu e decidiu socorrer esse homem. Afortunadamente, ao olhar para o lado, entreviu uma aranha do Paraíso parada em cima de uma folha de lótus esverdeada como jade, tecendo um lindo fio prata. O Buda cuidadosamente apanhou o fio dessa aranha com a mão e baixou-o verticalmente, pelos espaços existentes entre os lótus brancos brancos como pérolas, em direção às profundezas do Inferno, situadas muito longe, lá embaixo.


II


Lá embaixo se encontrava Kandata — acompanhado de outros condenados, flutuando, afundando e flutuando no Lago de Sangue, situado nas profundezas do Inferno. Para onde olhasse, avistava apenas um imenso breu. Quando notava algum brilho sutil emergindo da escuridão, ele advinha do reluzir dos alfinetes da Montanha dos Alfinetes. Não há nada mais desesperador do que essa visão! Além do mais, imperava um silêncio absoluto nas redondezas, um silêncio que lembrava o interior de um túmulo, um silêncio que só era interrompido pelas lamentações e murmúrios indistintos emitidos pelos condenados. Lamentações e murmúrios porque esses condenados, em sua descida para o Inferno, sofreram as mais variadas torturas e suplícios, ficando extenuados e sem forças para sequer externar uma voz lacrimosa. Com tudo isso, até mesmo um grande delinquente como Kandata sufocava-se com o sangue do Lago de Sangue e se contorcia semimorto, tal qual uma rã. Igual aos outros condenados.

Em determinado momento, algo aconteceu. Kandata, distraído, ergueu a cabeça e contemplou o firmamento acima do Lago de Sangue. Não é que notou um fio de aranha pendendo suave, exatamente acima da sua cabeça? Um fio prata, de brilho fraco, que parecia não querer despertar a atenção alheia. Kandata, vendo esse fio ao alcance da mão, alegrou-se instintivamente. Agarraria o fio. Se fosse obrigado a subir até o infinito para escapar do Inferno, com certeza ele o faria. Oba! Quem sabe pudesse até mesmo alcançar o Paraíso! Aí seria impossível ser tragado pelo Lago de Sangue!

Tendo isso em mente, Kandata agarrou de pronto o fio da aranha, com firmeza, e alçou-se pra cima pra cima, iniciando sua escalada. Era um grande delinquente, esse Kandata. Desde tempos remotos. Já devia estar acostumado a esse tipo de atividade.

Todavia, a distância entre o Inferno e o Paraíso é de dezenas de milhares de léguas, não é tarefa fácil atravessá-la. Não adiantava se impacientar. Após alguns instantes de escalada, Kandata se rendeu ao cansaço. Não conseguia dar nem mais um puxão. Não havia outro jeito: decidiu fazer uma pausa. Enquanto permanecia ali dependurado, na metade do percurso, voltou seus olhos para a imensa caverna escura situada abaixo de si.

Percebeu que as energias despendidas na escalada geraram frutos: o Lago de Sangue, onde se encontrava há pouco, agora fazia parte do abismo indecifrável. A Montanha dos Alfinetes, com seu reluzir desesperador, já estava abaixo dos seus pés. Se continuasse nesse ritmo, nada poderia impedi-lo de escapar do Inferno. Kandata — ambas as mãos enroscadas no fio da aranha — gargalhou e, com uma voz nunca emitida desde o dia em que desembarcou no Inferno, anos e anos atrás, proclamou: “Oba! Consegui! Consegui!”.

No entanto, algo lhe chamou a atenção. Não é que logo abaixo havia um número incalculável de condenados trepados no fio da aranha, seguindo com devoção os passos de Kandata? Todos eles subiam em um só espírito pra cima pra cima pra cima, uma fileira de formigas. Vendo aquilo, Kandata primeiro admirou-se, segundo ficou aterrado, terceiro quedou-se boquiaberto. Aquele rosto imóvel, a boca escancarada, os olhos — a única coisa a mover-se em seu semblante — lhe davam um ar imbecil, papa-moscas. Se aquele frágil fio de aranha se encontrava a ponto de romper-se suportando apenas Kandata, como seria com o peso de incontáveis pessoas? E, se rompesse, Kandata despencaria para o Inferno de outrora. Ele, Kandata, a parte mais importante envolvida! Ele, Kandata, que subiu com empenho desde lá debaixo! Ah, se isso acontecesse, seria terrível! Enquanto ponderava, os condenados subiam às centenas, aos milhares, aos enxames!, vindos das profundezas sombrias do Lago de Sangue, subindo com ardor, rastejando, escalando o fio da aranha em uma única fileira. Se Kandata não fizesse algo naquele momento, o fio necessariamente romper-se-ia, e Kandata necessariamente despencaria.

Kandata vociferou: “Ei! Ei! Esperem aí! Este fio de aranha é meu! Quem falou que vocês podem chegar e já ir subindo? Desçam. Vamos, desçam! Xô! Xô!”. Foram essas as palavras de Kandata.

Precisamente nesse instante — plic! — o fio da aranha, que não havia sofrido nenhum dano até o momento, rompeu-se de repente, justamente no ponto onde Kandata se encontrava dependurado. E assim, Kandata cortou o vento rodopiando como um pião. Num piscar de olhos, despencou rumo ao precipício insondável.

De tudo isso, só restou o agora curto fio da aranha do Paraíso, de brilho fraco, pendendo naquela escuridão similar a uma noite sem luar nem estrelas.


III


O Buda continuava em pé na margem do Lago do Lótus, situado no Paraíso, e acompanhou com atenção o episódio, do seu início ao seu desfecho. Quando percebeu que dentro de instantes Kandata afundaria como uma pedra no Lago de Sangue, resolveu retomar sua caminhada — solitário e ocioso — com um semblante que denotava tristeza. Kandata, com seu coração cruel e sem compaixão, desejou escapar sozinho do Inferno, e foi castigado de forma condizente. Aos olhos do Buda, esse retorno às profundezas do Inferno deveu-se ao seu egoísmo.

E qual a importância que os lótus do Lago do Lótus, situado no Paraíso, dão para eventos desse tipo? Nenhuma. Suas flores brancas brancas como pérolas, circundando os pés do Buda, oscilavam seus cálices, e de seus estames dourados emanava uma gostosa fragrância — difícil expressá-la em palavras! — que transbordava para as cercanias, sem jamais arrefecer.

Devia ser quase meio-dia no Paraíso.

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