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Bela e recatada, a jovem se esmera nos preparativos para a cerimônia do chá 茶の湯. O quimono de baixo branco e vermelho atestam o berço aristocrata, enquanto o penteado tanajura marumage 丸髷 e a aliança indicam sua condição de moça direita. Influenciado pelo Ocidente, o uso de alianças se tornou moda no Japão da era Meiji 明治時代 (1868-1912), embora ainda faltasse às japonesas a exata noção de em que dedo — e mão — deveriam ser colocadas. Olhos apertados e lábios franzidos, a garota transporta a tigela com a cautela de quem segura uma granada sem pino.

Os utensílios em destaque também remetem ao tema: uma pena, um porta-incenso e um vaso com flor. Os primeiros aludem à etapa do mise en place, em que o incenso aromatizaria o ambiente e a pena avivaria o carvão em brasa. Posteriormente, enquanto a bebida é servida e apreciada, são admirados arranjos florais simples. No caso, Kunichika optou por uma singela camélia.

As origens da cerimônia do chá retrocedem ao século 6 e ao príncipe indiano Bodhidharma (Darumá 達磨, em japonês), patrono do zen-budismo. Certa vez, o bodisatva adormeceu enquanto meditava e, ao despertar, foi tamanha a mortificação com sua fraqueza que o monge arrancou as pálpebras — que, ao tocarem o solo, germinaram os primeiros brotos de chá.

Menos os de camomila, que dá sono.


Título: Gozen kuji 午前九時

Série: Mitate chuya nijuyo ji no uchi 見立昼夜廿四時之内 (1890)

Artista: Toyohara Kunichika 豊原国周 (1835-1900)

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