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A arte de acobertar


Certa ocasião, o xógum Tokugawa Hidetada 徳川秀忠 (1581-1632) convocou à sua presença o vassalo Noma.

“Como recompensa pelos longos anos de serviço, gostaria de homenageá-lo com um jantar.”

Noma era um sujeito parvo de brilho opaco, porém muito íntegro e leal, razão pela qual Hidetada depositava nele profunda confiança. Para o vassalo, não havia honraria maior. No entanto, assim que se viu à mesa com o xógum, tremia igual vara verde.

Foi-lhe trazida uma tigela com sopa de grou, porém Noma permaneceu paralisado.

“Sirva-se”, convidou o generalíssimo.

Em deferência, Noma segurou a tigela alto, mas tão alto, que ela desequilibrou e derramou sopa sobre sua cabeça.

“Quente! Quente!”, exclamou enquanto o líquido escorria por sua nuca e costas.

Um deslize desonroso. Imperdoável. Suportando estoicamente a dor, o vassalo olhou receoso na direção de Hidetada, cujo rosto se apoiava na palma da mão.

O xógum dormia!

Ligeiros, os serviçais logo trouxeram da cozinha nova tigela de sopa.

“Aqui, rápido. Pegue.”

Quando Noma por fim se recompôs, Hidetada abriu os olhos.

“Mm, acho que cochilei”, disse com ar ausente. “Que coisa, deve ser cansaço acumulado. Peço desculpas. Mas, me diga, a sopa está saborosa? Fui eu mesmo quem caçou o grou.”


Hidetada sabia que, de conduta irrepreensível, Noma seria incapaz de conviver com tamanho erro protocolar e acabaria cometendo suicídio ritual. Assim, fingiu dormir.

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