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Introdução

13 de dez. de 2025
6 min de leitura

INTRODUÇÃO

 


O Japão sob a égide dos xóguns Tokugawa, que governaram o país de 1603 a 1868, era um mundo à parte. Introspectivo. De 1635 em diante, os mandatários militares virtualmente proibiram seus súditos de viajar para o estrangeiro — sob pena de morte, caso retornassem — e, a partir de 1639, dois anos após a Revolta de Shimabara, instigada por ideais cristãos, o comércio externo foi restrito a transações com mercadores holandeses e chineses alocados em Nagasaki, na ilha de Kyushu. As relações diplomáticas com a Coreia e o reino de Ryukyu eram conduzidas respectivamente pelos domínios de Tsushima e Satsuma, enquanto cabia ao domínio de Matsumae, situado ao norte, comercializar com os nativos ainu. Os forasteiros pouco conheciam do Japão de então, porém de uma coisa eram sabedores: tratava-se de uma nação insular isolada, irrequieta e preocupada com um intercâmbio desimpedido com o mundo.

Este livro se debruça sobre acepções até então aceitas acerca do período, inclusive a prerrogativa de país fechado, e as coloca em perspectiva. O estudo aprofundado do mundo Tokugawa elucida que, durante os séculos em questão, o Japão era menos encapsulado do que se imaginava. Cidadãos japoneses residiram por longos intervalos em complexos incrustrados em Wakan, na Coreia (atual Busan) e na ilha de Okinawa, no reino de Ryukyu, como também exploraram Ezo e ilhas ao norte, negociando com os (ainda) independentes ainu. É provável que houvesse japoneses na China continental desde a metade do século 17 e comunidades nipônicas no Sudeste Asiático desde a década de 1580, que se mantiveram ativas muito tempo após a publicação dos éditos isolacionistas sakoku.

Publicações europeias e chinesas circulavam amiúde no arquipélago. Emissários mercantis holandeses eram interrogados na busca por informações sobre política mundial e conflitos como, por exemplo, as Guerras Napoleônicas. Já no início do século 19, era possível adquirir nas livrarias de Edo detalhados mapas-múndi de inspiração francesa.

O mundo Tokugawa era em larga escala pacífico, emergente de cem anos de guerras civis. A Pax Tokugawa foi, em conjunto com a política segregacionista, a principal característica do Japão da época, que permitiu mais de dois séculos de crescimento econômico sem precedentes, o surgimento de metrópoles habitadas por uma vibrante cultura burguesa e a “domesticação” da vasta casta samurai. Esta, que constituía cerca de 7% da população, permaneceu nominalmente o estrato prevalente da sociedade, administrando-a por meio de instituições cada vez mais ossificadas e dispensáveis, enquanto as massas camponesas evoluíam de uma classe relativamente homogênea para uma categoria pulverizada em proprietários e proletários, arrendatários e trabalhadores diaristas, empreendedores comerciais etc. E aqueles que migraram de cidades-castelo ou vilas portuárias se reinventaram como cidadãos de urbes, alçando-se a criadores e moldadores da cultura popular.

A época também é conhecida por período Edo, designação que segue a tradição japonesa de se referir a eras históricas pelo local geográfico em que era exercido o poder político factual: Asuka, Nara, Heian, Kamakura, Muromachi etc. Tokugawa Ieyasu e seus sucessores governaram da capital Edo, atual Tóquio, a maior metrópole do mundo no início do século 18. A era Tokugawa (ou Edo) compreende parcela significativa daquilo que os historiadores nipônicos categorizam de período Kinsei 近世, pré-moderno ou medieval tardio. A depender da fonte, ele se inicia em 1568, 1572, 1600 ou 1603, mas em geral abarcam os governos dos senhores da guerra Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi, que pavimentaram o caminho para o terceiro xogunato, sob jugo dos Tokugawa. Os mais de trezentos anos do período Kinsei sucederam o período medieval Chusei 中世 e antecederam o período moderno Kindai 近代, iniciado com a Restauração Meiji de 1868.

É plausível afirmar tratar-se de uma sociedade feudal, fragmentada entre 250 a 270 domínios governados por daimiôs locais que atuavam com poderes de monarcas e mantinham a seu serviço legiões de guerreiros, cujas remunerações se davam mediante estipêndios em arroz coletados das comunidades agrárias que jamais se dignavam a visitar, mas que eram forçadas a sustentá-los sob o princípio de que os samurais, líderes hereditários e bastiões da moral, deveriam ser vestidos e alimentados pelo populacho. O argumento de que a classe dos bushi incorporava o Caminho, conforme preconizado pelos céus e descrito em textos confucianistas, foi amplamente utilizado pelos governantes para justificar o sistema.

No período Edo, as cidades se transformaram, por letra da lei, nos centros da casta samurai. Subordinados a decretos dos governos centrais, a obrigatoriedade provocou ampla demanda por um sem-número de produtos e serviços. Entre 1580 e 1630, o país testemunhou uma urbanização repentina e exponencial sem precedentes na história mundial. Em parcela significativa das cidades-castelo, os habitantes se dividiam em citadinos e samurais, o que engendrou uma relação simbiótica bastante visível, inclusive, na cultura nipônica moderna. O rígido controle na interação com o estrangeiro, a paz interna continuada e o vigoroso capitalismo incipiente, enraizado nos centros urbanos, auxiliaram a moldar o Japão contemporâneo após seu ingresso forçado na aldeia global na década de 1850.

Paradoxalmente, enquanto desafiava os princípios globais de livre comércio, o Japão, impulsionado menos por transações internacionais do que pelo mercado interno em franca expansão, aliado às inesperadas implicações das sanções feudais, desenvolveu um capitalismo próprio. A exigência de que os samurais devessem estabelecer morada nas cidades-castelo fez eclodir centros urbanos da noite para o dia, além de uma gama de consumidores para tudo aquilo que os camponeses viessem a produzir, o que os libertou do trabalho na corveia.

O mundo Tokugawa era permeado de contradições. Seus habitantes enxergavam aborto e infanticídio com indiferença, tratando-os como mabiki 間引き, podar partes supérfluas ou indesejáveis, indispensável para a sobrevivência das famílias ao evitar que caíssem em ruinosa pobreza. Muitos bebês do sexo feminino eram sufocados em baldes para assim “retornar” às divindades e cumprir uma reciclagem cármica. A sociedade do período Edo encorajava o sacrifício de recém-nascidos, embora dedicasse generosa atenção e carinho às crianças.

A posição das mulheres era repleta de incoerências. A premissa neoconfucianista da inferioridade feminina, além da associação budista das mulheres com a lascívia, era aceita pela maioria. Na prática, porém, poderiam ser chefes de família, associar-se aos homens nos negócios, participar de clubes literários e viajar desacompanhadas. Aliás, não é um consenso que o status das mulheres tenha melhorado após a Restauração Meiji de 1868.

Em tese, os samurais eram a classe predominante, correspondentes ao shi, eruditos, da sociedade chinesa, baluartes da moralidade e detentores de autoridade sobre camponeses, artífices e mercadores, que deveriam a eles se sujeitar em troca do privilégio de receber seus ensinamentos. Improdutivos e motivados pelo lucro, os comerciantes era o estrato menos digno de valor.

Ainda assim, a posição dos samurais sofreu mudanças drásticas durante o período. Apesar de nunca desafiada por uma burguesia politicamente engajada, os bushi, que monopolizavam cargos políticos e administrativos, sofreram baques relevantes, e as reiteradas leis suntuárias reforçando marcadores de status são apenas um indicador da queda de patamar.

De forma apropriada, o xogunato Tokugawa é caracterizado como conservador. Enquanto as escolas de budismo prevaleceram por todo o período medieval, o confucianismo, com preocupações civis e éticas, além da ênfase na manutenção de classes sociais ossificadas, dominou o pensamento dos governantes a partir do século 17. Não era, contudo, hegemônico. Havia outras correntes intelectuais, inclusive mais tolerantes. Diversas escolas de confucianismo prosperaram, com a ortodoxia neoconfucianista recebendo a maior fatia do apoio oficial e atuando como ideologia semioficial do Estado, o que não impediu a existência de um rico espectro de pontos de vista distintos acerca de educação, história, pós-vida e questões militares, dentre outros.

O regime fazia uso de templos budistas para registrar e controlar a população, o que garantiu sua vitalidade continuada. Embora a corrupção clerical provocasse críticas e acusações acerca da degeneração do pensamento de Buda, a escola zen em particular floresceu sobremaneira. Enquanto isso, o kokugaku 国学, estudos nacionalistas, desafiava a hegemonia ideológica de modelos indianos e chineses. Mesmo a perseguida fé cristã persistiu em bolsões. Eruditos manifestavam um amplo leque de opiniões toleradas acerca da existência ou inexistência dos deuses, vida após a morte, natureza dos espíritos etc. O Japão Tokugawa, na verdade, talvez tenha sido mais intelectualmente liberal em alguns aspectos do que a Europa iluminista.

 

The Tokugawa World. Gary P. Leupp e De-Min Tao (eds). Nova Iorque: Routledge, 2022.


Imagem: Sansui tojinbutsu zu byobu 山水唐人物図屏風 (1795-1799)

Artista: Nagasawa Rosetsu 長澤蘆雪 (1754-1799)

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