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A velha lesada dos bolinhos


CONTOS DE FADAS JAPONESES — A VELHA LESADA DOS BOLINHOS

tradução para o inglês de Lafcádio Hearn


Há tempo, tempo demais, existia uma velha bastante engraçada que adorava gargalhar e preparar bolinhos de arroz. Certo dia, cozinhava os ditos bolinhos para o jantar, mas eis que um deles escapuliu e rolou até o buraco no chão de terra da humilde cozinha. A anciã tentou reavê-lo enfiando os dedos, a mão, o braço no buraco.

De repente, o chão se abriu e a engoliu. A velha despencou de altura considerável, sem contudo sofrer um arranhão sequer. Levantou-se, sacudiu a poeira e percebeu estar em uma estrada idêntica àquela diante da sua residência. Avistou arrozais, porém nenhuma presença humana. Difícil acreditar, mas parecia que a idosa mulher caíra em outro país.

A estrada era bastante íngreme. Procurou pelo bolinho — de boba, porque devia estar rolando ladeira abaixo. A velha desceu a ribanceira aos trancos e barrancos, gritando:

“Meu bolinho! Meu bolinho!”

Momentos depois, notou à beira do caminho uma estátua de pedra do bodisatva Jizo.

“Santo Jizo, o senhor por acaso viu meu bolinho?”

“Sim”, respondeu a divindade. “Mas aconselho a não prosseguir. Adiante, habita um terrível oni devorador de gente.”

A mulher gargalhou e ignorou a advertência.

“Meu bolinho! Meu bolinho!”

Calhou de encontrar nova estátua do Jizo.

“Santo Jizo, o senhor por acaso viu meu bolinho?”

“Sim, acabou de passar”, confirmou o bodisatva. “Porém, recomendo não avançar. Mais à frente, existe um terrível oni devorador de gente.”

A anciã apenas riu e seguiu adiante.

“Meu bolinho! Meu bolinho!”

Por fim, deparou-se com um terceiro Jizo.

“Santo Jizo, o senhor por acaso viu meu bolinho?”

“Esqueça bolinhos. O oni se aproxima. Agache-se atrás de mim e não emita um som sequer."

Em instantes, o assustador demônio apareceu e se postou diante da estátua.

“Bom dia, bodisatva.”

O santo de pedra o cumprimentou, muito educado, momento em que a desconfiada entidade farejou o ar duas, três vezes.

“Sinto cheiro de gente, você não?”

“Mm”, desconversou a divindade. “Talvez esteja enganado.”

“Não”, respondeu o oni enquanto farejava outra vez. “É cheiro de gente.”

Então, a velha de risada incontinente gargalhou, ao que o demônio meteu a grande mão cabeluda por trás da estátua e a trouxe para si.

“O que fará com a anciã?”, interveio o Jizo. “Não deve machucá-la.”

“Ela não sofrerá. Será nossa nova cozinheira.”

Em seguida, o oni conduziu a mulher ladeira abaixo, até alcançarem um rio largo e profundo, em cuja margem estava atracado um barco. Subiram à bordo e atravessaram as águas até a residência do demônio, uma habitação cheia de cômodos.

O oni deixou a anciã na cozinha e ordenou que preparasse o jantar para ele e as demais entidades residentes. Para tal, confiou-lhe uma pequena espátula de madeira.

“Coloque apenas um único grão de arroz na panela. Ao mexer a água com a espátula, ele se multiplicará.”

Conforme as instruções, a velha colocou somente um grão de arroz na panela e mexeu a água com a espátula. O grão de transformou em dois, então em quatro, dezesseis, trinta e dois, sessenta e quatro. E assim por diante. A cada ciclo da água fervente, a quantidade de arroz dobrava. Em questão de minutos, a grande panela estava transbordante.


A velha permaneceu anos na residência do oni, cozinhando para o anfitrião e seus convidados. O demônio cumpriu o prometido e jamais a machucou, sequer a assustou, e o serviço se mostrou fácil. Apesar da imensa quantidade de arroz demandada pelas entidades, a espátula se encarregava de quase tudo.

Porém, havia a solidão.

Em certa ocasião, quando as criaturas demoníacas estavam ausentes, a senhora resolveu escapar. Apanhou a espátula mágica, enfiou-a na faixa na cintura e caminhou até o rio. Desatracou o barco e, mostrando-se hábil remadora, logo se afastou da margem.

O rio, todavia, era extenso demais. A velha mal completara um quarto do trajeto quando os oni retornaram e deram pela falta não apenas da cozinheira, mas também da espátula. Dirigiram-se de forma atabalhoada ao rio, onde perceberam a figura da anciã a se distanciar.

Incapazes de nadar, e sem embarcações sobressalentes, os demônios resolveram se ajoelhar e emborcar a água do rio em velocidade tamanha que, antes mesmo da anciã alcançar a metade do percurso, o nível já estava bem baixo.

A mulher persistiu, até a água estar tão rasa que os oni interromperam a bebedeira para vadear o rio, ocasião em que a velha abandonou o remo e investiu contra as entidades com a espátula, fazendo caretas tão engraçadas que provocou gargalhada geral.

Entretanto, ao gargalhar, os oni regurgitaram todo o líquido engolido, o que possibilitou à velha alcançar a margem oposta e escapar ladeira acima, em desabalada corrida que só cessou quando alcançou a saudosa morada.

Agora, a anciã podia fazer quantos bolinhos desejasse, tantos, que passou a vender para vizinhos e viajantes, tornando-se uma pessoa rica.

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