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A montanha crepitante


CONTOS DE FADAS JAPONESES — A MONTANHA CREPITANTE

tradução para o inglês de David Thompson


Era uma vez um camponês de idade avançada. Certa noite, sua esposa servia o almoço quando foi surpreendida por um tanuki guloso, que devorou toda a comida. Furioso, o ancião o capturou e pendurou de ponta-cabeça em um caibro.

“Prepare uma sopa com a carne. Cozinhe o bicho bem cozido”, disse à esposa e partiu rumo às montanhas.

A mulher socava cevada em um almofariz e cantarolava, gritante contraste com o desespero do tanuki.

“Não me mate, por favor. Por favor, por favor.”

Era digno de pena. Que dó. Comovida, a boa senhora desamarrou a corda e libertou o animal, que saltou na sua direção e a assassinou. Em seguida, utilizou a carne do cadáver no ensopado, assumiu a forma da mulher e aguardou.

Horas depois, o ancião retornou e, prestes a provar a comida, foi interrompido pelo tanuki.

“Você ia jantar a própria esposa. Que nojo! Olhe, os ossos dela estão escondidos debaixo do piso”, gritou e, enquanto gargalhava alucinado, atravessou a porta e desapareceu.

Ao velho, coube deitar o par de hashi na mesa e chorar, chorar.


Uma lebre que habitava as montanhas escutou o pranto dolorido do homem e, para apaziguar sua alma atormentada, jurou vingança.

“Mas, primeiro, asse um punhado de feijões.”

O camponês fez conforme solicitado. A lebre colocou os grãos na algibeira e se despediu.

Atraído pelo delicioso aroma, o tanuki a abordou.

“Feijões tostados! Me dá, me dá.”

“Basta me ajudar a transportar este fardo de mato seco até o outro lado da montanha.”

“Prometo. Me dá, me dá.”

“Primeiro o mato, depois os feijões.”

Lançou o fardo às costas do tanuki e pediu que caminhasse à sua frente. Então, apanhou a pederneira e produziu uma fagulha no mato seco.

“Som esquisito...”, suspeitou o tanuki.

“É o som característico da região. Afinal, estamos em Kachi-Kachi, a montanha crepitante”, tranquilizou-o a lebre. Em minutos, as chamas se espalharam pelas costas do tanuki, deixando-o coberto de feridas purulentas. Chorando de dor, o bicho se livrou do fardo, rolou pelo chão para apagar o fogo e escapou mata adentro.

Em seguida, a lebre elaborou um suposto emplastro feito de sal grosso, vinagre e pimenta vermelha. Vestiu o chapéu e começou a alardear a cura milagrosa para queimaduras.

“Parece coisa boa”, cogitou o tanuki, as costas inflamadas. Adquiriu o produto: difícil encontrar palavras para descrever a agonia no momento em que o emplastro penetrou em sua pele machucada. Os urros de dor do tanuki eram audíveis por centenas de metros.

Após três semanas, o tanuki estava curado. A lebre, por sua vez, estava entretida na construção de um barco.

“O que pretende?”

“Pescar, ué.”

Apesar de faminto, o tanuki era inábil em fabricar coisas.

“Quer saber? Vou fazer um barco de argila. Mais simples”, refletiu.

A criatura remou acompanhada da lebre até o mar aberto, momento em que a embarcação de argila começou a se desfazer e afundar. A lebre aproveitou para brandir o remo e golpear a cabeça do tanuki, que morreu.

Vingança: check.

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