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Utsuro-bune, o navio abandonado

Era 22 de fevereiro de 1803, o dia em que pescadores da província de Hitachi 常陸国 perceberam uma estranha embarcação à deriva no oceano. Curiosos, rebocaram a nave até a praia e calcularam medir por volta de três metros de altura e cinco de extensão. Arredondado, seu formato se assemelhava ao de um queimador de incenso koro 香炉, mas também ao de um pião. A metade inferior era estriada por lâminas de metal, enquanto a porção de cima parecia de pau-rosa laqueado em vermelho, com janelas e treliças feitas de um material similar a vidro ou cristal, seladas por uma espécie de resina vegetal.

Ao espiar o interior através das janelas transparentes, os perplexos pescadores perceberam estar a superfície do utsuro-bune 虚舟, navio abandonado, revestida de símbolos misteriosos, um deles bastante parecido com a atual bandeira da Coreia do Sul. Dentro, ainda descobriram dois lençóis, uma garrafa com três litros e meio de água, o pedaço de algo similar a um bolo e certa quantidade de carne moída. E também uma jovem, cuja idade oscilava entre dezoito e vinte anos, um metro e meio de altura e cabelos ruivos com apliques esbranquiçados feitos de pelagem animal ou de alguma peça têxtil empoada. Sua pele era clara, com nuances rosas, e vestia roupas longas de um tecido macio desconhecido.

A garota falou em um idioma engrolado incompreensível. Embora amigável, agia de modo suspeito, sempre agarrada a uma caixa de formato quadrado feita de material opaco, com pouco mais de meio metro de comprimento, a qual não permitiu que ninguém tocasse ou investigasse seu interior, apesar da insistência.

Em conversa com os demais habitantes da vila pesqueira, especulou-se ser a jovem uma princesa recém-casada de um reino estrangeiro que se entregou a um relacionamento ilícito, o que acarretou a execução do amante e seu degredo por meio do utsuro-bune. A misteriosa caixa encerraria a cabeça decepada do amado.

Chegaram à conclusão de que a garota deveria cumprir seu destino e a recolocaram na embarcação, que retornou ao mar para nunca mais.


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