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Os príncipes Hoderi e Hoori


CONTOS DE FADAS JAPONESES — OS PRÍNCIPES HODERI E HOORI

tradução para o inglês de T.H. James


Sua alteza Hoderi era um príncipe adepto da pescaria, e sua sorte era tamanha que todos os tipos de peixe, dos pequenos aos grandes, terminavam fisgados em seu anzol. Já seu irmão mais novo Hoori apreciava a caça, e sua bonança se desdobrava nos campos e florestas, onde capturava aves e animais selvagens diversos.

Certa vez, Hoori disse ao irmão mais velho:

“Vamos trocar? Você caça e eu pesco.”

Hoderi não se empolgou com a sugestão, e sua reação inicial foi negar. Entretanto, o caçula tanto insistiu que concordou. Porém, ao se aventurar nas águas, Hoori não somente apanhou zero peixes como ainda perdeu o anzol do irmão.

“Caça é caça e pesca é pesca. Voltemos ao arranjo original. Devolva meus utensílios”, pediu Hoderi.

“Eu perdi.”

“Vire-se.”

À resposta, Hoori estilhaçou a longa catana que trazia na cintura e dos fragmentos moldou quinhentos anzóis, implorando a Hoderi que os aceitasse. Em vão. Em seguida, forjou mil anzóis.

“Peço que receba-os.”

O primogênito meneou a cabeça.

“Quero o meu anzol. Não me contentarei com imitações.”

Devastado, Hoori sentou-se nas areias da praia e chorou cascatas, o que despertou a atenção de Shikotsutsu, o velho sábio do mar.

“Por que tamanha tristeza, jovem príncipe?”

Hoori contou ao ancião sobre o anzol perdido que tanto enfureceu o irmão e a necessidade de reavê-lo. Nada de cópias. Shikotsutsu construiu um barco pequeno e robusto e pediu a Hoori que embarcasse, empurrando-o na direção das águas.

“Prossiga por algumas horas. O mar está tranquilo, será uma viagem agradável. Você chegará a uma construção imponente com paredes que lembram escamas. É o palácio de Watatsumi, rei dos mares. Após atravessar os portões, perceberá uma bela cássia-imperial cujos galhos se esparramam sobre o poço ao lado. Trepe até o topo da árvore. A filha do regente saberá da sua presença e o orientará.”

Hoori fez conforme instruído e tudo se desenrolou de acordo: alcançou o palácio, subiu na árvore e sentou na copa. Em minutos, aproximaram-se serviçais da princesa Toyotama, filha do rei dos mares. Traziam consigo cântaros dourados com os quais pretendiam puxar água do poço, porém sua atenção foi desviada para a cássia-imperial, de onde pendia o rapaz.

Hoori pediu água. As serviçais baldearam o poço e ofereceram um dos cântaros. Sem beber, o jovem príncipe buscou a joia pendurada em seu pescoço, colocou-a entre os lábios e a derrubou no recipiente.

“Existe um estrangeiro em nosso reino?”, perguntou mais tarde Toyotama, ao descobrir a pedra preciosa no fundo do cântaro.

“Sim, senhora. Ele está pendurado na cássia-imperial. É bastante bonito, mais até que o rei. Solicitou água, mas, em vez de beber, resolveu cuspir nela a joia.”

Que coisa rara, refletiu a princesa, partindo em seguida ao local. De fato, o rapaz era bastante ajeitado. Contudo, sem permitir a Hoori mais que um vislumbre de si, acorreu à presença de Watatsumi.

“Pai, tem um garoto nos portões.”

O próprio monarca foi conferir. Bastou olhar para o jovem para reconhecê-lo. Fez com que descesse da árvore e o acompanhasse ao palácio, onde ofereceu a Hoori um trono com oito camadas de escamas de robalo e número idêntico de tapetes de seda. Em seguida, um banquete foi disposto à mesa. Todos eram tão amáveis que o príncipe se casou com Toyotama e permaneceu três anos no fundo do oceano.

Passados tantos meses, contudo, Hoori lembrava saudoso da terra natal e do motivo que o conduzira à presente situação.

“Somos um casal feliz”, disse Toyotama ao pai. “Mas, agora, ele vive suspirando pelos cantos. Estou aflita.”

O rei dos mares solicitou a presença do príncipe, que relatou ao sogro o episódio do anzol perdido e o consequente comportamento irascível do irmão. Watatsumi convocou os súditos.

“Algum de vocês encontrou o tal anzol?”

“O tai! O pargo!”, responderam as criaturas marinhas em uníssono. “Ele tem reclamado de algo entalado na garganta.”

Então, fizeram o pargo escancarar a boca e inspecionaram seu interior. O anzol. Finalmente. O monarca restabeleceu o objeto a Hoori, junto com duas pedras preciosas.

“Vá para casa e devolva o anzol ao seu irmão. Aproveite para amaldiçoá-lo. Caso ele plante mudas de arroz nos planaltos, você plantará nos vales. Caso opte pelos arrozais nos vales, você escolherá os planaltos. Eu comandarei as águas em seu favor. Se porventura Hoderi se enraivecer e tentar matá-lo, saque uma das joias e a maré jusante surgirá para afogá-lo. Na hipótese dele se arrepender e pedir perdão, a joia remanescente invocará a maré vazante e permitirá que sobreviva.”

Em seguida, Watatsumi solicitou a presença de crocodilos.

“O príncipe deve regressar à terra natal, quem se oferecerá para levá-lo em velocidade?”

“Permita-me”, ofereceu-se um réptil de quase dois metros de comprimento. “Retornarei no decorrer de um dia.”

“Está decidido”, decretou o rei dos mares.

Hoori devolveu o anzol ao irmão e seguiu as diretrizes de Watatsumi. Prejudicado no plantio, Hoderi empobreceu e, furioso com a fartura do caçula, decidiu assassiná-lo. No entanto, Hoori utilizou a joia jusante em tempo hábil. Ao se ver tragado pelas águas, o primogênito implorou pela vida, ao que Hoori trocou as joias para salvá-lo.

Depois de longo período amaldiçoado, Hoderi capitulou.

“De agora em diante, submeto-me a você, irmão mais novo. Velarei por sua vida dia e noite, servindo-o no que considerar necessário.”

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