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Os amantes crucificados


Os atores Ichikawa Danjuro III no papel de Mohei e Bando Shuka no papel de Osan. Utagawa Kunisada 歌川国貞 / Utagawa Toyokuni III 三代歌川豊国 (1786-1865).


OS AMANTES CRUCIFICADOS

Peça de Chikamatsu Monzaemon 近松門左衛門 (1653-1724)


Na residência do fabricante de almanaques


Ishun era um daikyoji, responsável pela guilda que imprimia o almanaque oficial da corte, recebendo para tal estipêndios do xogunato. Localizada em Quioto, na Shijo-Karasuma, a oficina estava em polvorosa. Era o primeiro dia do décimo primeiro mês, início da distribuição dos almanaques para o ano vindouro, e a equipe estava atarefada em despachar as publicações.

Apesar do tumulto, Ishun dormia. Era grande o cansaço, afinal visitara o palácio imperial e as mansões da nobreza para entregar almanaques. Agora, quem deixava a oficina para circular nova fornada era o caixeiro-chefe Sukeemon, acompanhado de um assistente.

Enquanto isso, Osan, esposa de Ishun, acariciava a gata de estimação, observada pela criada Otama. O felino se agita, arranha a mão de Osan e escapa. Típico. Osan chama a gata e parte em seu encalço. A criada está prestes a seguir a patroa, momento em que Ishun desperta e tenta agarrá-la. Otama resiste e ameaça expor o assédio caso o fabricante de almanaques não a liberte. A aparição súbita da mãe de Osan em visita imprevista obriga Ishun a capitular. Osan reaparece para recepcionar a mãe e conduzi-la a um aposento interno.

Um dos funcionários da guilda, Mohei, regressa da visita a clientes. Está um pouco bêbado, pois seria deselegante recusar o saquê oferecido nas reuniões. Osan se aproxima e solicita sua ajuda: o pai se encontra em dificuldades financeiras e ela necessita de um empréstimo, sob a promessa de restituir o valor nas próximas semanas. A jovem explica que o pai reluta em pedir ao genro, cuja fama de sovina é notória. Ishun, inclusive, brincava (ou não) que só obtinha lucro por remunerar a equipe com salários de fome. Mohei, rapaz impressionável fascinado pela beleza da esposa do patrão, voluntaria-se para ajudar Osan, que alegremente parte para compartilhar as boas novas com a mãe.

Osan e Mohei. Kitagawa Utamaro 喜多川歌麿 (c. 1753-1806).


Apesar da melhor das intenções, Mohei não possui tostão furado. Então, emite uma letra de câmbio e nela insere o selo de Ishun para, com o documento falsificado, obter o empréstimo de um atacadista. A transação acaba descoberta pelo caixeiro-chefe Sukeemon, que convoca a guilda, Ishun inclusive, para castigar o funcionário. Impossibilitado de revelar o motivo da fraude, Mohei permanece em silêncio, apesar da insistência do patrão em exigir explicação. De modo a poupar o rapaz de nova sessão de agressões, a criada Otama dá um falso testemunho: pedira dinheiro a Mohei porque seu tio escreveu que cometeria suicídio caso não saldasse uma dívida antiga. Osan e a mãe, que a tudo observavam, temerosas que o verdadeiro motivo do estelionato viesse à tona, imploram a Ishun que perdoe o funcionário, gesto que enfurece ainda mais o fabricante de almanaques. Ordena que Mohei seja aprisionado até o dia seguinte, quando continuarão os suplícios. Por fim, convida a sogra a pernoitar ali e parte para visitar o sogro, com quem gostaria de compartilhar o ocorrido.

Após todos se recolherem, Osan visita em segredo o aposento da criada para agradecer a ajuda providencial. Otama confidencia tê-la feito por amor a Mohei, e aproveita o clima confessional para revelar os persistentes assédios do patrão. Segundo ela, seria o motivo da fúria de Ishun quando a criada se pronunciou culpada. Otama ainda confidencia que, todas as noites, o patrão se esgueirava ao seu dormitório porejando libido. Até o momento, conseguiu refutar os avanços, contudo a visita de Ishun ao sogro provavelmente era uma justificativa para se ausentar e visitá-la de madrugada. A revelação enraivece Osan. Desejosa de envergonhar o marido, solicita a Otama que troquem de quarto — e roupas de dormir.

Horas depois, é Mohei quem aparece. Conseguira escapar do cárcere e se esgueirou ao aposento da criada para manifestar sua gratidão — com sexo, retribuição ao sentimento de Otama por por ele. Desconhecendo a verdadeira identidade um do outro, Mohei e Osan se amam em silêncio. Osan pensa partilhar o leito com Ishun. E Mohei, com Otama.

Mais tarde, o fabricante de almanaques retorna e bate à porta. Sukeemon desperta e acende a lanterna para recepcionar o patrão. A luz faz Osan e Mohei descobrirem a verdade. Assim como Ishun.

Osan. Kitagawa Utamaro 喜多川歌麿 (c. 1753-1806).


Na residência em Okazaki


Sukeemon se dirige à morada de Akamatsu Bairyu, samurai sem mestre e contador de histórias profissional. Tio de Otama. O caixeiro-chefe desce do palanquim e arrasta a criada amarrada. Que Bairyu a mantenha sob custódia. O ronin acusa Sukeemon de prendê-la sem possuir autoridade necessária, espancando-o com um bastão e obrigando que desatasse os nós que prendiam a sobrinha. Resmungando juras de vingança, o caixeiro-chefe sobe no palanquim e parte.

Adúlteros fugitivos, Osan e Mohei aparecem na residência de Bairyu, porém, antes de bater à porta, decidem escutar a conversa que se desenrola no interior, momento em que Bairyu aconselhava Otama a se consolar com a pena de morte, afinal não seria inocentada da acusação de facilitação de adultério.

Os pais de Osan se encaminham para um templo budista quando, surpresos, encontram com a filha e Mohei na estrada. Apesar do ódio espumante do pai, a compassiva mãe entrega ao casal dinheiro suficiente para buscar refúgio na cidade natal de Mohei, na província de Tanba.

Retrato de Osan e Mohei. Komura Settai 小村雪岱 (1887-1940).


No esconderijo em Tanba


Era o primeiro dia do ano. Artistas itinerantes entoavam cantigas diante do esconderijo de Mohei e Osan, que decide oferecer algumas moedas ao líder da trupe — que a reconhece, pois costumava frequentar a residência de Ishun, em Quioto. Osan tenta suborná-lo com uma quantia adicional, e implora que mantenha incógnita sua localização.

Mohei regressa da visita a um santuário local e revela a Osan que a polícia viera de Quioto para prendê-los. É o que dizem. O casal se prepara para nova fuga quando os agentes da lei aparecem.

Bairyu aparece, nas mãos uma caixa em cujo interior descansa a cabeça decepada da sobrinha. Em seguida, implora aos policiais que perdoem Osan e Mohei. A culpa toda deveria recair sobre Otama, única responsável pelo adultério acidental, razão pela qual a decapitou. O oficial responsável lamenta a afobação de Bairyu. Agora, Otama não poderia testemunhar na corte em favor do casal e determinar sua inocência.

Osan e Mohei são amarrados e conduzidos ao pátio de execução em Awataguchi, nas cercanias de Quioto. Apesar das lágrimas, estão resignados com seu destino: a crucificação.

Os atores Ichikawa Danjuro III no papel de Mohei e Bando Shuka no papel de Osan. Utagawa Kunisada 歌川国貞 / Utagawa Toyokuni III 三代歌川豊国 (1786-1865).

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