Introdução


Escrevi o livro em poucos dias, entusiasmado com a possibilidade de comunicar o caminho do não-dualismo. Porque o não-dualismo, que é a tônica destas páginas, constitui o começo, o meio e o fim do zen. E como raramente encontramos textos que sublinhem esse ponto, acredito que o pequeno livro agora apresentado pode pretender ser de alguma utilidade.

Foi escrito por acreditarmos que a raiz do descaminho do homem moderno e toda sua angústia de viver está na estrutura dualista de seu pensamento. Somos fascinados pelo consumo crescente de facilidades materiais produzidas pela indústria. Mas, ao mesmo tempo, odiamos a poluição. Qualquer coisa assim como um bêbado revoltado contra a ressaca. É um conflito dualista.

Desenvolvemos processos sofisticados de comunicação, mas cada vez mais nos apegamos às discriminações que criam o desamor e o medo entre os homens. A mecânica da comunicação cresce e a solidão se agiganta. É um conflito dualista.

Criamos organizações magníficas para garantir o conforto, a saúde, os prazeres e a segurança. Mas, com isso, as liberdades de cada um ficam diminuídas. É um conflito dualista.

Apegamo-nos deslumbrados aos estímulos múltiplos que os sentidos proporcionam. Cada vez mais nos agarramos à vida. E cada vez menos queremos ouvir falar de morte. É um conflito dualista.

A contradição dualista é, assim, a usina geradora dos sofrimentos maiores e menores do ser humano contemporâneo. Enquanto mantivermos a estrutura dualista de nossa mente, continuaremos, todos os dias, produzindo causas de sofrimento individual e social. Este pequeno livro sobre o zen dá ênfase especial à compreensão da estrutura dualista de nosso pensamento. E aponta o caminho para a libertação não-dualista.

Como viver sem contradição em um mundo cheio de contradições?


Nelson Coelho, Zen: experiência direta de libertação (Itatiaia, 1978)

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