Gratidão


E eis que Matsuo Basho 松尾芭蕉 (1644-1694) partiu em direção a Yoshino 吉野町, na antiga capital Nara 奈良市, para finalmente contemplar as tão alardeadas florações de cerejeira que tornavam o local famoso. Na metade do trajeto, escutou sobre uma jovem e sua profunda devoção ao pai. Estando sua residência a um curto desvio da rota original, o poeta resolveu conhecê-la.

Era um lar miserável. A mãe da garota falecera prematuramente. Como as finanças da família eram precárias, desde cedo a jovem trabalhava em funções subalternas diversas. Em determinado verão, o pai foi acometido por uma forte doença. Sem recursos para chamar um médico, velava por ele dia e noite.

“Dizem que a gratidão aos pais é maior que as montanhas e mais profunda que o mar, porém é raro haver exemplos palpáveis. Aqui, espero que ajude”, disse Basho e entregou todo o dinheiro que trazia consigo.

Subitamente depauperado, não restou ao poeta alternativa senão abandonar a viagem. Ao retornar para casa, um amigo lhe perguntou:

“Me conte, como são as florações de Yoshino? Estão à altura da fama?”

“Tive que suspender”, respondeu e relatou seu encontro imprevisto.

“Mas...”

“Quis o destino que eu contemplasse algo ainda mais admirável que o desabrochar das cerejeiras: a beleza do amor e da gratidão aos pais. Não me arrependo. Afinal, no ano que vem as árvores florescerão novamente, não é mesmo?”

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